A intenção do livro Deus te Salve, João Batista! Uma contribuição sobre o Banho de São João de Corumbá – Mato Grosso do Sul sempre foi a de contar, visualmente, a história dos elementos da manifestação festiva permeada por princípios religiosos, mostrando os ritos e os rituais, a devoção, a alegria e o ápice da festividade, que acontece com o banho do santo nas águas do Rio Paraguai. Admitiu-se, como prerrogativa de apoio à preservação, a construção de uma memória tanto das aporias quanto da apreensão de uma realidade.

Estima-se que há, atualmente, mais de cem grupos de ‘festeiros’ do Banho de São João na cidade de Corumbá – Mato Grosso do Sul. Tais grupos podem ser identificados por seus nomes de batismo e, ainda assim, receber alcunha por referência de proximidade afetiva ou de localização geográfica: Comunidade Monte Castelo, São João da Dona Maria Paula, Arraial da Nhá Berê, da Nhá Concha, da Shá Onça, da Tenda Espírita São João Batista, da Tenda Espírita Ilê Afro Axé Orixá, da Tenda Espírita Ilê Axé Ti Oxum Casa das Bênçãos da Mamãe Oxum, da Tenda Espírita Umbandista Caboclo Estrela do Norte, entre outros. Estas são algumas das ‘comunidades festeiras’ que vêm dar significado aos elementos constituintes e destacados desse patrimônio imaterial que está sendo apresentado em imagens.

Foi preciso, portanto, estarmos atentos às explosões dos fogos de artifício, anunciando mais um ano de ciclo de rezas e/ou de uma festividade que iria começar nas ‘comunidades festeiras’. Os artistas visuais participantes do projeto atenderam prontamente ao chamado, em que se incluiu a aceitação do convite para o desafio da construção de um trabalho cooperado. Em busca dos elementos, tivemos o intuito de ressaltar o conjunto que forma a identidade ancestral dessa tradição. O Banho de São João de Corumbá que apresentamos se destaca por se realizar, também, não a partir de uma cartografia dos inúmeros grupos, tipos e religiões, mas por centrar-se na força das relações de convivências e dos compromissos religiosos de pessoas que protagonizam essa manifestação popular.

Embora houvesse uma pesquisa e um roteiro sobre o que se pretendia realizar, por alguns momentos os fotógrafos deixaram-se levar pela condição do inesperado, para o registro da festividade. Dessa forma, enfrentaram os desafios de pouca luminosidade, já que, em sua maioria, as rezas e as festividades acontecem à noite. Decidiram diminuir o uso de flash para não interferir no ambiente. As condições aparentemente desfavoráveis, tanto tecnicamente (iluminação) quanto de produção (o imediatismo), foram utilizadas como força estética; tornaram-se um fio condutor ao longo do livro.

Em momentos como esse, a posição da curadoria foi sempre a de agir com a finalidade de interlocução, para dirimir incertezas e prezar pelas convicções dos fotógrafos, mesmo por aquelas que estivessem em desalinho com as proposições da ação da curadoria. Um dos direcionamentos foi o de identificar e realçar elementos que, além dos predefinidos, estivessem presentes, mas talvez obscurecidos, ou que aparecessem por recorrência, oposição ou exclusividade, como por exemplo os ritos e rituais que antecedem o banhar do santo, a ambiência das ‘comunidades festeiras’, ora de dia, ora de noite, o sincretismo religioso constante em algumas comunidades, as cinzas das fogueiras, as águas do Rio Paraguai, etc. Dessa forma, destacaram-se elementos já espontaneamente levantados no trabalho. Outras referências traduziram-se em apontar nuances da cidade de Corumbá como reduto desse patrimônio imaterial.

Houve, portanto, um compromisso com uma forma de expressão estética. Não se trata de uma pesquisa formal sobre o tema. A abolição de legendas fez parte de uma decisão de equipe, que preferiu evitar a interferência da numeração de páginas, das descrições minuciosas, das referências demasiadas.

Um desenho limpo e imagens ricas de significantes – é o óbvio... Está tudo aí, à sua frente!

Hélènemarie Dias Fernandes
Curadora